PARA RECEBER A MEMÓRIA D-O-QUE-VEM

Jonas Miguel Pires Samudio*

 

 

O texto, comemorando um ano de abertura do MAS: Museu de Arte Sacra de Uberlândia, propõe uma reflexão do “museu” como lugar de acolhida de uma memória inconclusa, a memória do o-que-vem; com alegria e na companhia de Giorgio Agamben e de Martin Heidegger, celebramos esta comunidade e o seu tempo.

 

 

para rodrigo félix

para rogério alves

 

em 1990, lido em 2015 e 2016, a respeito de um’a comunidade que vem, foi escrito: “o ser que vem é o ser qualquer”;[1] o pensamento entendia, nesse momento, que o “qualquer”, frente à singularidade, lhe acrescenta

 

[...] apenas um vazio, apenas um limiar; qualquer é uma singularidade, mais um espaço vazio, uma singularidade finita e, todavia, indeterminável segundo um conceito. Mas uma singularidade mais um espaço vazio não pode ser outra coisa senão uma exterioridade pura, uma pura exposição. Qualquer é, nesse sentido, o acontecimento de um fora. [...] O fora não é um outro espaço que jaz para além de um espaço determinado, mas é a passagem, a exterioridade que lhe dá acesso – em uma palavra, o seu rosto.[2]

 

fato curioso: diante de um “qualquer”, no espaço vazio que é próprio à sua singularidade vazia, se propõe o desejo como acolhida de uma não-completude constitutiva, acolhida do “fato de ser” acompanhado de um gesto que, circundando o vazio das palavras, e das coisas que elas são, inscreve, escrevendo, uma exterioridade intensa, o-que-vem,

 

– o espaço da exterioridade que toma forma como o “fora”

 

poderia, então, acrescentar que “fora” do “qualquer”, há a coisa que vem, aquele que vem, o inaudito outro-a que vem, o-que-vem como pulsão que alter-a o vazio que lá, antes estava

 

nesse ponto, gostaria de dizer da experiência de ver – sim, este é o ponto decisivo: ver como quem vê, pela vez primeira, o acontecer de um outro-a que está chegando, sem nunca se concluir, nem a concluir, em sua chegada – a abertura do mas: museu de arte sacra de uberlândia;

 

– sim, propositalmente desvincule o nome da instituição a que é vinculado, pois é o vazio, que as instituições sinalizam sem o querer, que está em jogo naquele o-que-vem

 

gostaria, pois, como dizia, de tratar do ver o mas; e o mas, aqui, instaura, no mesmo movimento, uma instância interruptiva e uma estância de abertura: de um lado, é mas, conjunção adversativa que, marcando o que até então fora dito, traz uma outro-a ideia, talvez, nem sempre uma ideia nova-total, mas, sempre, uma marcação de um outro-a até então despercebido; então, o mas marca uma instância adversativa no espaço vazio que, por ora, chamamos diocese e cidade de uberlândia, pois, em ambos espaços, pode-se marcar o-que-vem como um outro-a que vem, marca que, porém, nunca é garantida

 

– situação sinalizada, por exemplo, na presença co-comunicante de experiências religiosas múltiplas; presença tímida, talvez, mas como o vazio da concha tirada do mar, aproximada do ouvido, a presença do outro-a ressoa, em presença, aquele que é o já-id-o-que-vem

 

sim, a questão segue esse caminho; como dizia, o mas é instauração de uma abertura: o que está, nele, aberto não é o passado, mas o-que-vem

 

– mas museu não é, como leio no dicionário, “instituição onde se reúnem e conservam obras de arte, objetos de valor histórico ou científico, para fins de pesquisa e exposição pública; coleção ou exposição de objetos variados, em conformidade com um tema, uma faixa de tempo ou critérios subjetivos”; ou em sentido figurado, e este é o mais reconhecido, “casa onde se guardam muitas coisas antigas e sem uso, de maior ou menor valor”?[3]

 

seria, se o fosse; mas não o sendo, não o é; pois, seria, mesmo, possível guardar o passado? seria o passado passível de ser um objeto de fetiche? uma amostra de que é possível controlar e reter aquilo que foi? e o que é o-que-foi? então, sendo um depósito-para-exposição, poderia eu, logicamente, fazer três museus? um para, evidentemente, guardar o passado?, outro em que, fiel à criatividade, pudesse expor meu presente à visão mais próxima?, e ainda outro, em que o futuro, no seu acontecer em expetativa, me seria, fiel inventor, dado guardar?

 

li, certa vez, acerca do passado, do presente, e do futuro, que eles não são, pois o tempo é experimentado como o presentar; então,

 

[...] este não-mais-presente se presenta imediatamente no seu ausentar, a saber, ao modo do “que foi” e nos aborda. Este não desaparece no anterior agora, como o puramente passado. O que foi se presenta, entretanto, à sua maneira própria. No que foi é alcançado presentar. Mas o ausentar também se endereça a nós, no sentido do ainda-não-presente, ao modo do presentar, no sentido do vir-ao-nosso-encontro. É assim que se ouve dizer: o futuro já começou; o que não é o caso, porque o futuro jamais começa primeiro, na medida em que o ausentar do ainda-não-presente já sempre, de algum modo, nos aborda, quer dizer, se presenta tão imediatamente como o que foi.[4]

 

então, proponho, na esteira desses pensamentos intensos, que o museu, como mas, seja um lugar

para a

memória d’oque-vem

não importando, então, se de séculos atrás estamos falando, se do agora, na sua sutileza e esvaimento, ou se do futuro e seu ainda-não

um museu para guardar – como um relicário para as relíquias, corpos textuais d’o-que-vem –, transmitir – essa séria palavra que ouvi –, e testemunhar que, no museu, ainda que sem o apoio de muitos que, de seu lugar, falam de testemunho mas não saem para o fora, para o seu fora, e, portanto, não o encontram como marca em seus corpos de vida, aproximando-os mais do estado do passado perfeito, testemunhar, pois, que

se há um vazio,

um vazio que se dá a ler

e, mas, deve testemunhar um lugar: irrupção adversativa do abert-o-que-vem

 

nem passado, nem presente, nem futuro: uma memória que vem é o receber, do aberto, o-que-vem, que, portanto, não traz, em seu bojo, nem a verdade, nem a certeza, nem o definitivo; traz o fato de receber verdade e certeza da abertura, contorno indelével, em definitivo sempre aberto – a verdade de que: o “ser é” se está sendo –,

 

nas imagens, nas peças, na arte que as atravessa, e na palavra que ultrapassa o desejo, seja aquele que faz companhia e avança, em crescente operação de trabalho, sim, operação como aquela que nos dá a ver o jesus nazareno rei dos nordestinos, exposto, posto no fora da religiosidade popular, mas nascido como o homem, do trabalho de um criador, no encontro entre as mãos e o barro, seja, ainda, o desejo de construir separação, desapoio, que age contra aquilo que se chama comunidade;

mas, se deitamos nosso olhar, nesse mas, sobre a comunidade que vem, para lê-los, à comunidade e ao mas, talvez esteja em nossas mãos o

 

instante e a estância em que a memória não nos mate, que não a matemos, que não a reconstruamos – pois fazê-lo não depende de esforço, mas de fantasia –, mas que a recebamos, como a mais inesperada e alegre vibração,

corp’o-que-vem ao encontro de nossos corpos

 

 

Referências:

AGAMBEN, Giorgio. A comunidade que vem. Trad. Cláudio Oliveira. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

HEIDEGGER, Martin. Conferências e Escritos Filosóficos. Trad. Ernildo Stein. São Paulo: Nova Cultural, 1991 (Col. Os Pensadores).

AULETE. Dicionário digital. Disponível em: <http://www.aulete.com.br>.



[1] AGAMBEN. A comunidade que vem, p.9.

[2] AGAMBEN. A comunidade que vem, p.64.

[3] Museu. Dicionário Aulete virtual. Disponível em: <http://www.aulete.com.br/museu>. Acesso em 02 de maio de 2015.

[4] HEIDEGGER. Conferências e escritos filosóficos, p.212.